Dedé Pederneiras vê José Aldo mais motivado para lutar boxe do que MMA

Os últimos dois anos não foram bons para José Aldo no UFC. O lutador manauara perdeu o cinturão dos pesos-penas duas vezes – primeiro para Conor McGregor, em dezembro de 2015, e, após levar o título interino e ser promovido de volta a campeão linear, foi derrotado por Max Holloway, em junho passado. O treinador e manager do atleta, Dedé Pederneiras, acredita que o que mais o machucou, no entanto, foi o tratamento recebido do Ultimate, primeiro contestando a gravidade da lesão que o tirou de uma luta contra McGregor em julho de 2015, e depois lhe negando uma revanche com o irlandês.

José Aldo e Dedé Pederneiras: treinador quer que lutador faça o que o faz feliz (Foto: Raphael Marinho)

José Aldo e Dedé Pederneiras: treinador quer que lutador faça o que o faz feliz (Foto: Raphael Marinho)

A soma dos fatores teria jogado o campeão peso-pena mais bem sucedido da história do MMA nos braços do boxe. Apaixonado pela “nobre arte” há anos – muito antes de McGregor começar a desafiar Floyd Mayweather Jr, vale pontuar – José Aldo vem se dedicando cada vez mais ao esporte e foi abraçado por treinadores e pugilistas profissionais, tanto no Brasil quanto nos EUA, onde passou uma temporada treinando na academia de Robert Garcia, com campeões mundiais como o próprio Robert, Miguel Angel Garcia, Fernando Vargas, entre outros.

– Acho que desde a história do Conor, de não ter tido uma revanche imediata, acabou com ele, de falar, “P***, eles não me dão valor nenhum”. (…) Isso foi realmente desmotivando ele. “Eu fui campeão por tanto tempo, aconteceu o que aconteceu, e agora não me dão uma chance de tentar recuperar da forma como tem que ser feito, numa revanche”. O Aldo nunca foi protegido no UFC, e sempre foi muito cobrado. A todo e qualquer momento que aconteciam as coisas, ele era cobrado duramente. (…) Aí aparece essa situação do boxe, ele vai treinar boxe e os caras elogiam pra caramba, (falam) “Você tem chance de lutar profissionalmente”. Aí ele vai para os EUA numa academia muito boa e os caras falam a mesma coisa. Aí você começa a ter uma outra motivação, te dá uma outra vontade de fazer as coisas. Você vê que hoje ele é um cara muito mais motivado pra treinar boxe do que MMA. Lógico, se estiver com luta marcada, ele vai ter que treinar MMA do mesmo jeito – conta Dedé Pederneiras, em entrevista exclusiva ao Combate.com.

José Aldo ainda tem cinco lutas por cumprir em seu contrato com o UFC, mas sua transição para o boxe já começou. Além do intercâmbio na Robert Garcia Boxing Academy, o lutador quer fazer sua primeira luta profissional antes mesmo do término do vínculo com o Ultimate.

– Eu provavelmente vou pedir outra reunião com o Dana para tentar deixar que pelo menos ele comece a lutar profissionalmente aqui no Brasil, pedindo liberação a cada luta. Isso já tinha sido ofertado numa reunião que a gente fez há um ano atrás, eu acho. O Dana tinha falado que poderia liberar, desde que eles estivessem de acordo. Não sei como isso está hoje em dia. Na verdade, a gente pediu isso muito antes do Conor, mas pra gente isso foi negado, e pro Conor… Quando envolve muito dinheiro, a conversa muda. Eu posso entender o outro lado – diz Pederneiras.

A mudança representaria potencialmente uma grande perda de dinheiro tanto para Aldo quanto para Dedé, já que o lutador pretende começar por baixo no boxe, em vez de saltar direto para uma superluta contra os grandes nomes como fez McGregor, sem contar a queda de prestígio para a equipe Nova União no UFC ao perder seu nome mais bem sucedido para outro esporte. Pederneiras, contudo, jura estar de acordo com os planos de seu pupilo.

– Eu tenho um negócio comigo que é o seguinte: não adianta você forçar um atleta que não tenha motivação para ficar fazendo o que ele está fazendo. Não estou dizendo que ele não tenha motivação pra lutar MMA, mas se ele tem uma motivação maior para lutar boxe, eu prefiro que ele vá para o boxe, mesmo perdendo dinheiro. Acho que o cara tem que fazer o que ele fica feliz em fazer. Acho que no início ele vai perder dinheiro – acho não, tenho certeza, não vão pagar o que ele ganha no UFC de jeito nenhum no início – e com isso eu perco também, mas eu prefiro que ele faça o que ele tem vontade de fazer. Porque às vezes ele entra desmotivado, não treina, e acaba jogando tudo o que você fez na vida no lixo. O cara foi um supercampeão. Nessa luta passada agora, não desmerecendo o Holloway, mas ele teve lesão, aí teve um monte de coisa… Se fosse uma coisa normal, a gente teria cancelado a luta. Mas ele ficou naquela, “Vou lutar, vou lutar”, então acho que é muito melhor você fazer um negócio que você esteja motivado, do que você não esteja motivado o bastante para chegar 100% na luta.

Apesar desta mudança de mentalidade, Dedé acredita que José Aldo ainda tem motivação para fazer as lutas que restam em seu contrato com o UFC. Segundo o empresário e treinador, o plano é buscar grandes lutas independente do peso, ou uma oportunidade de fazer história e recuperar o cinturão peso-pena, que seria o bastante para virar a cabeça do ex-campeão 100% para o MMA.

– Acho que qualquer revanche que ele fizesse, seja com (McGregor) ou contra Max Holloway, ele estaria motivado. Com certeza ele estaria motivado. Ele almeja voltar a ser campeão. Se você for pegar pra ver, não me lembro mas deve ter, um cara que era campeão, perdeu o cinturão e voltou pra ser campeão na mesma categoria. Se tiver outro, é um só, e ele seria o primeiro a fazer isso acontecer por três vezes. Se ele fizesse pela terceira vez, seria indiscutível, o único cara a fazer isso. (Nota da redação:Randy Couture é o único lutador da história do UFC a conquistar o cinturão da mesma categoria em três oportunidades diferentes, no peso-pesado.) São coisas assim que motivam ele a treinar forte pra lutar. A grande vantagem do pessoal aqui da equipe, é que eles já foram competidores de jiu-jítsu. “Já perdi, voltei a ganhar”. Eles já tem esse negócio de ser competidor. A grande vantagem do atleta que vem do chão é o número de competições que o cara faz que ele perde e ganha. A derrota não é a morte pra ele – explica.

Fonte: Combate.com por Adriano Albuquerque, Raphael Marinho e Zeca Azevedo

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