Dedé sugere férias, mas Aldo “quer acabar contrato com UFC o mais rápido possível”

Com quatro compromissos restantes, lutador planeja acelerar processo para se livrar da organização e poder se dedicar ao boxe, de acordo com o líder da Nova União

Antes mesmo da segunda derrota para Max Holloway, ocorrida há um mês, Dedé Pederneiras já havia falado que a motivação de José Aldo para o MMA não era a mesma. O revés na revanche contra o havaiano não ajudou a melhorar a situação, e o treinador do ex-campeão dos penas chegou a sugerir que o pupilo se afastasse dos treinos por um tempo para tentar retomar o ânimo que lhe falta atualmente. Entretanto, o manauara tem apenas um objetivo em mente: fazer as quatro lutas que restam no contrato com o Ultimate para se ver livre da companhia e poder se dedicar ao boxe profissional, seu sonho no momento.

Apesar disso, Dedé acredita que o futuro de Aldo no Ultimate seguirá sendo entre os penas e, ao analisar a divisão, considera que o jogo pode virar a favor do brasileiro em breve. Para isso, na opinião do técnico, basta que Frankie Edgar, provável próximo desafiante da divisão até 66kg, tome o cinturão de Holloway, pois o atleta da Nova União já venceu o ex-campeão dos leves (até 70kg) em duas oportunidades.

– Se o Frankie é campeão hoje, e o Aldo já fez uma ou duas e ganhou as duas, quem seria o próximo do UFC antes? Acho que até o Frankie ia querer para tirar a limpo – afirmou, em entrevista ao Combate.com.

José Aldo disse para Dedé Pederneiras que pretende cumprir o quanto antes o contrato com o Ultimate (Foto: Marcelo Barone)

José Aldo disse para Dedé Pederneiras que pretende cumprir o quanto antes o contrato com o Ultimate (Foto: Marcelo Barone)

Confira a entrevista:

Que análise você faz da atuação do Aldo contra o Holloway?

– Acho que o lado emotivo do Aldo, o emocional na luta, pesou. Chegou uma hora que os dois começaram a trocar, e ele, em vez de parar e se mexer, quis plantar até um cair. Acabou sentindo os golpes, já estava meio tonto, acabou por baixo. Não que a luta fosse mudar, não posso dizer isso, mas acho que o juiz parou errado dessa vez. Da outra vez achei que o John McCarthy deixou passar um ponto e depois parou quando parecia que não deveria, já que o Aldo disse que estava tudo ok. Faltavam 9 segundos, o Aldo se defendia, um soco entrou e ele parou a luta. Faz parte. Isso é esporte, não dá para condenar o árbitro, mas acho que o emocional dele querer nocautear o cara como troco fez que ele perdesse essa luta agora.

Acha que o psicológico pesou nessa luta então?

– Não digo psicológico. Como ele perdeu no Brasil, ficou com a gana de querer lutar com o cara de novo. Acho que ele chutou menos do que planejamos, o Holloway estava sentindo. Quando acabou a luta, ele saiu apoiado em um dos córneres, mancando. No meio da luta, ele demonstrou que estava sentindo, por mais que segurasse bem. Em alguns momentos, víamos ele tirar a perna porque sentia os chutes. O caminho que traçamos era o certo, mas chegou um momento que o Aldo preferiu usar a mão e não chutar.

Depois da derrota contra o Conor McGregor, o Aldo fez uma luta cerebral contra o Frankie Edgar. Desta vez, depois de perder para o Holloway, você disse que ele teve essa questão emocional na revanche. Acha que a derrota para o Holloway doeu mais do que a contra o McGregor por ter sido em casa?

– Difícil falar isso. Com o Conor foi uma derrota, primeiro que a gente não esperava, segundo, da forma que foi, tão rápida, não deu para mostrar nada. Jogar um soco, o outro também jogar, um acertar o queixo e o outro o supercílio e ele não tinha perdido no UFC ainda. O baque foi muito grande. Perder em casa foi muito ruim, na frente da torcida. São derrotas, em termos de peso, parecidas.

Quanto ainda pesa nessa questão do emocional ele nunca ter tido a revanche com o Conor? Consegue ver o Aldo voltar a ter o foco de antes mesmo sem fazer outra luta contra ele?

– O Aldo quer lutar boxe há muito tempo. Aconteceu isso do Conor, que foi uma situação chata entre a gente e o UFC. Tivemos outras questões que fomos para Vegas conversar com o Dana. Ele pediu para lutar boxe, o Dana negou e, tempos depois, o Conor estava lutando boxe. Ele não teve a consideração que achou que pudesse ter. Meses antes ele pediu, a resposta foi não. Meses depois o Conor consegue luta no boxe sem problema nenhum e o UFC libera. Lógico que tem muito dinheiro envolvido e na luta dele não teria, mas nem tudo na vida é dinheiro. Ele ficou bastante desmotivado.

Depois surgiu a possibilidade de fazer uma luta com o Nurmagomedov, era a chance dele cercar o Conor por todos os lados. Campeão do 66kg, ia disputar interino de 70kg, não tinha para onde o Conor sair sem lutar com ele, só se parasse de lutar. Aí o pai do Khabib resolveu negar a luta naquele momento por achar melhor não fazer. A gente entende, são estratégias que o empresário, pai, treinador, tem para o seu atleta em cada momento da carreira. Teve o Ferguson falando que queria lutar com o cara, antes daquilo do Khabib, a gente pediu, o Ferguson também não quis. Foi se desmotivando mais ainda.

O Max não ia disputar o cinturão, era luta normal com o Anthony Pettis, aí o Aldo tinha pouco tempo que tinha lutado pelo título, não estava afastado, a luta principal caiu e essa virou de título interino. Ele recebeu o oficial quatro meses antes, depois houve necessidade de ter interino no card. Foi como se falassem que a categoria não valia nada e colocaram a disputa interina. Ele não esperava de jeito nenhum e ficou bastante chateado com certas coisas que aconteceram com ele. São rumos que a empresa toma e nem sempre seu funcionário tem que se sentir bem com isso. Mas com ele acho que isso se repetiu por várias vezes. “Ah, não, o Aldo está machucado e ficou um ano sem lutar”. Se pegar o Conor agora, quanto tempo está? Não se machucou, nem nada. Tem diversos outros que ficaram mais tempo fora. Todo tempo que o Aldo era campeão, era pressionado por algum motivo. Tinha lesão e tinha que viajar para os EUA para mostrar que estava lesionado. A empresa tem seu rumo, funcionário tem que entender ou pedir para ir embora.

Com quatro lutas no contrato, o que esperar do futuro do Aldo no UFC?

– Estamos conversando ainda para ver qual a vontade que tem de continuar lutando ou não. Acho que a carreira do Aldo é uma carreira que ninguém tem o que falar. Pode fazer o que quiser. Se aposentar, continuar, fazer superluta. Ele está pensando. Foi um cara que conseguiu, ao longo da carreira, juntar dinheiro e pode se aposentar hoje sem depender de ninguém. Não vai passar fome nunca mais na vida dele. Investiu o dinheiro dele, soube guardar, não depende de ninguém para se aposentar.

Mas você sente que existe essa vontade dele se aposentar? Já ouviu do Aldo isso?

Vejo que o Aldo tem essa tristeza de não ter conseguido a revanche com o Conor, querer lutar boxe, não poder e depois ter sido deixado para o Conor. Você, quando sai de uma derrota, já ouvi não só do Aldo, mas de diversos atletas. Mas de cabeça fria eu nunca ouvi ele falar que vai parar. Acho que o Aldo está nisso há muito tempo, em um tempo muito contínuo. Acho que o Aldo poderia tirar umas férias e sentir aquela motivação de voltar. Já conversei com ele, mas ele quer acabar o contrato com UFC o mais rápido possível.

Todas essas frustrações seguidas com o UFC mataram a motivação dele?

– Difícil falar isso. Tem divergências, sempre teve, mas isso é normal. Se pegar todos que são campeões há muito tempo, em algum momento ele tem uma briga com UFC. A empresa sempre vê seu lado, e o atleta vê o lado do atleta. Você fica naquele meio do caminho em que cada um puxa para um lado. Certas coisas não devem ser ditas nem de um lado, nem de outro. Às vezes acho que o UFC falou coisas em momentos difíceis da carreira do Aldo, e o Aldo em alguns momentos chutou o balde e falou um monte de coisa do UFC. Essa balança tem que ser conversada para se manter equilibrado, senão acaba explodindo tudo.

Caso resolva continuar, ainda tem motivo para ele seguir no peso-pena ou vê ele subindo para os leves, como já foi cogitado outras vezes?

– Acho que essa motivação de subir de categoria o Aldo sempre teve, não gosta de cortar peso. Mas ele não perde muito peso. O Aldo joga com 72kg, 73kg no dia da luta, 6kg ou 7kg acima do limite. Peso normal dele agora é 74kg, 75 kg. Só que ele odeia fazer dieta, odeia desidratar, isso é dele, sempre foi assim desde o início. Tanto que fez lutas no Brasil e no Japão de 70kg, mas porque não gosta de perder peso. O Aldo não cai de rendimento por causa do corte de peso, ele perde pouco. Não pode falar que ele sofre com isso e muda resultado da luta. Pode lutar bem nos 70kg, mas vai pegar caras bem grandes, pesando 84kg, 85kg e que fariam muita diferença contra ele pesando 74kg, 75kg. Não é um cara que vai subir de peso e lutar com 80kg no dia da luta. Vai lutar praticamente no mesmo peso de hoje em dia. Luta mais leve no 66kg, mas vai lutar no peso dele normal. Acho que ele vai ter chance de ganhar de qualquer um nos 70kg, mas vai pegar caras muito grandes.

O que acha melhor para ele? Ficar no pena?

– Ficar no pena, ganhar as lutas e ter nova chance pelo título. Falam que o Dedé é maluco, que ele perdeu duas vezes nocauteado, perguntam por que acham que ele vai disputar o cinturão. Eu digo: “Beleza. Eu acho que o Aldo em quatro lutas, se ganhar as quatro nocauteando ou finalizando, e o Max continuar como campeão, não vejo terceira luta, mas se pensarmos que a próxima luta do Max é com o Frankie Edgar, e o Aldo ganha a próxima luta e o Frankie é o próximo campeão, quem é o próximo desafiante?”. O Aldo ganhou dele duas vezes. Nada mais justo que o cara que perdeu duas vezes dê a revanche para tirar a limpo. Você não consegue prever o futuro ou até consegue dependendo de quem esteja na cabeça. Se o Frankie é campeão hoje, e o Aldo já fez uma ou duas e ganhou as duas, quem seria o próximo do UFC antes? Acho que até o Frankie ia querer para tirar a limpo.

Você disse que ninguém pode atribuir a queda de rendimento do Aldo ao corte de peso. A que você atribui a queda de rendimento? Motivação, queda física pela quilometragem de carreira, já estar resolvido financeiramente…

– É muita coisa que você pode atribuir a isso. É difícil cravar uma resposta para essa pergunta. Tem que estar dentro do Aldo para ter essa resposta. Eu, mesmo estando do lado dele, não posso cravar. Pode ser tudo isso ou nada disso. Pode ser falta de motivação para mudar de vida, pode ser que está de saco cheio de treinar, prefere chegar hoje e sair na porrada hoje mesmo. O Aldo tem 30 lutas, acorda todo quebrado do treino do dia anterior, aí vai falar: “Mais um dia que vou pra lá, vão acertar minha cara, acertar minhas pernas… Não vou hoje. Deixa pra amanhã”. Quando você fala em termos de treinamento, acúmulo de treinos é muito importante. Quando você começa a ter esse pensamento, diminui tua carga de treinamento para um resultado melhor. Não estou dizendo que foi isso aconteceu com o Aldo. Digo que a vontade de fazer mil repetições no início, se cair para 500, você não vai ter o mesmo resultado. Se você treina menos, seu rendimento vai ser menor. Basicamente é isso.

Você disse que acha melhor ele seguir no pena pensando em voltar a ser campeão. Vê nele a mesma gana de voltar a ser campeão?

– Vejo ele tendo vontade de ser campeão. Se falar que é a mesma gana de antes de ser campeão do WEC, vou estar mentindo. Se ele falar isso para você, ele vai mentir também. Não tem como. Tinha 20 e poucos anos, não tinha nada e queria ser alguém na vida. Hoje ele é alguém na vida, está financeiramente estabilizado, então não pode ser igual. Ele ama lutar? Ama, vai lutar sempre. Mas não vejo o Aldo lutar em outro evento que não seja o UFC. Ele já falou que chegou na primeira divisão e não quer continuar em outra. No dia que parar no UFC, acabou. A não ser que seja por uma fábula de dinheiro.

Então essas quatro lutas no contrato são as quatro últimas de MMA do Aldo na sua opinião?

– A cabeça das pessoas muda muito. Se ele luta quatro, nocauteia quatro no primeiro round, vai querer se aposentar? Ele pode até ter hoje o pensamento disso, de acabar e não lutar mais. Mas luta quatro, você vem com um baú de dinheiro, ele vai se aposentar? Nâo vai. Prever futuro nessa situação é difícil.

Mas pra você, com certeza ele fará as quatro lutas ou pode parar antes?

– Vamos ter que viver o dia a dia para saber disso. Podem ser quatro vitórias rápidas, podem ser quatro derrotas rápidas, vou falar que ele vai continuar? Você lutar ali dentro com a luvinha daquele tamanho acaba sendo loteria. Pode estar espancando o cara, mas pega uma no teu queixo e acabou tua luta. Vai procurar no cartel e está derrota. Ninguém quer saber como foi. Daqui a 10 anos vão pegar o cartel e vão ver que perdeu. “Foi um roubo do juiz”, mas perdeu. Se não quer chorar depois, não deixe na mão do juiz. Se deixar, na maioria das vezes não vai conseguir mudar aquilo.

O Aldo te disse que quer fazer as quatro lutas que restam no contrato o mais rápido possível. Isso significa que ele faz a próxima quando?

– Ainda não falei sobre isso com ele, mas com certeza no primeiro semestre.

Que nomes fariam sentido para o Aldo nesse momento?

– Agora não tenho nem ideia. O melhor ranqueado possível. Não tenho acompanhado o ranking, mas acho que, depois do campeão, continua sendo o primeiro, porque o Frankie vem depois e o Aldo ganhou dele duas vezes. Acho que pegar um cara até quarto ou quinto seria o justo para se manter ali em cima.

Fonte: Combate.com Por Raphael Marinho.